quarta-feira, 19 de setembro de 2007

Sobre vanguardas e periferias

por Neide Luzia de Rezende





Segundo o grande crítico de teatro Décio de Almeida Prado, nas décadas de 60 e 70 reaparecia no Brasil uma atmosfera lúdica e radical, agressiva e divertida, que, com o estopim de O Rei da Vela, encenado por José Celso Martinez, trazia de volta o espírito da Semana de Arte Moderna. Oswald de Andrade parecia encontrar em alguns grupos de resistência cultural e política daquelas décadas, dentre os quais os tropicalistas, os verdadeiros destinatários de sua obra. E hoje ainda o movimento modernista continua fecundando a cultura no país.
O cartaz do evento Semana de Arte Moderna da Periferia aponta como referência não só a Semana de Arte Moderna de 22, mas também a Antropofagia, momentos distintos do modernismo – o segundo vinculado mais estreitamente à vertente oswaldiana. Em sua trajetória ao longo do século XX, além de lembrar um momento importante da arte nacional, a Antropofagia tornou-se sobretudo um conceito, que remete à assimilação crítica da cultura exógena e a uma tensão permanente e insolúvel entre culturas reapropriadas.
A retomada paródica do cartaz da semana modernista pelos artistas da periferia supõe ver no movimento de 22 uma referência, ainda que com distanciamento. As poucas folhas vermelhas do arbusto seco que insistia em medrar em terreno inóspito, no desenho de Di Cavalcanti, ganham uma tonalidade inusitada e talvez mais dramática na solução plástica do artista periférico Jair Guilherme. As folhas tornaram-se mais numerosas, parecem frutos vermelhos caindo, mas também sangue gotejando do fundo negro sobre a palavra Antropofagia Periférica escrita logo abaixo. A frondosa árvore que substituiu o esquálido arbusto modernista pode sugerir que não só cresceu o movimento como deu frutos 85 anos depois – e deu frutos na periferia.
Na alegoria do cartaz, porém, a vitalidade não elimina a carga dramática do sangue gotejante. Embora a alegria – prova dos nove do Manifesto Antropófago – esteja presente nos saraus da periferia, sua produção literária é marcada por um outro espírito: é séria, “realista”, dolorosa. É de outra ordem o estranhamento produzido pela linguagem – que em 22 era lúdica e contrária ao naturalismo. Os novos buscam construir sua obra literária muitas vezes a partir do “brutalismo” da linguagem cotidiana das camadas pobres da periferia e da transcrição fonética da fala popular, o que provoca e incomoda o leitor acostumado à linguagem-padrão da escrita e das produções letradas dominantes.
Apropriar-se da escrita e, ainda, da escrita literária supõe possibilidades infinitas e imprevisíveis para aqueles que ficaram à margem de um sistema que valoriza o homem culto e que, historicamente, se impôs como cultura central. O Modernismo, composto de homens da elite, foi beber nas manifestações do povo para revitalizar a cultura. Hoje, apesar do estrato popular dos integrantes do movimento da periferia, não se pode qualificar de inverso o processo, já que as idéias sobre cultura formadas no último século insistem na pluralidade e na diversidade, redefinindo polaridades como culto e popular.
As manifestações artísticas consagradas, que aparentemente se encontram distantes das camadas mais marginalizadas, revelam-se vivas e disseminadas, orientando concepções e produções culturais distintas. O meio acadêmico, por sua vez, tem exercido papel fundamental nesse processo de circulação cultural. Ao criar novas teorias sobre a realidade acaba disseminando entre instituições e agentes outras concepções de vida e de educação.
Os novos paradigmas lingüísticos têm proposto um entendimento não hierarquizado das possibilidades da língua, ao introduzir com força nas pesquisas e nos meios educacionais a idéia de variação lingüística, pois considera como legítimas todas as manifestações da linguagem – valorizando também as culturas por elas produzidas –, e não apenas a variante do padrão culto. A escrita, nas sociedades de hoje, é um instrumento de poder. E as variantes culturais historicamente excluídas podem estabelecer-se em meio aos outros campos mais legitimados e conquistar terreno. Penetrar, influenciar, apropriar-se.
Nesse sentido, a emergência de um movimento como esse não significa exatamente uma ruptura com o passado ou com as demais vertentes da cultura presente, como pode deixar supor uma idéia banalizada de vanguarda – mas sim uma inter-relação de elementos provenientes de outros campos, em constante tensão. Fronteiras também podem ser vislumbradas na conduta dos novos artistas periféricos, que resistem às tentativas de invasão de quem só quer pegar carona no sucesso alheio. E assim mais uma vez a Antropofagia se atualiza.


Neide Luzia de Rezende professora da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, especialista em Oswald de Andrade e autora de A Semana de Arte Moderna (Ática)

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

VEJA MAÉRIA DA FUNDAÇÃO DA COOPERIFA NA FOLHA DE SÃO PAULO

São Paulo, sábado, 10 de fevereiro de 2001

PANORÂMICA EVENTO

SP ganha Cooperativa Cultural da Periferia

Shows de rap e samba, exposições de artes plásticas, recitais de poesia, apresentações de capoeira e peças teatrais marcam hoje o lançamento do projeto da Cooperifa, a partir das 15h, num galpão do município de Taboão da Serra, na Grande São Paulo (rodovia Régis Bittencourt, km 271).

A entrada é franca.
Os organizadores esperam cerca de mil pessoas, vindas de vários bairros periféricos.

Mais informações com o idealizador da cooperativa, o poeta Sérgio Vaz, tel. 0/xx/11/9687-5228. (DA REPORTAGEM LOCAL)

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

Artigo do jornal " O Povo"


Os Brutos também amam (P/ Edu e Kaka) - Sérgio Vaz


Era um domingo de inverno, há quase trinta anos, quando eu conheci o amor pela primeira vez. O amor chegou em mim da forma mais discreta possível, apesar do baticum do meu coração.
Enquanto dançava com os olhos fechados e o peito aberto, desfilava pelo baile – sem sair do lugar - carregando nos braços aquela que seria a lembrança mais feliz da minha vida: o primeiro amor.
Não recordo bem se era Marvin Gaye (let’s get it on) ou Bee Gees (Reaching out) que rolava nas pick ups, só consigo me lembrar de estar ali, com os lábios ansiosos pelo fogo, implorando a deus que aquele momento nunca acabasse. Coisas do tipo: “Deus por favor... faça o tempo parar...”.
Se alguém um dia se encontrar com deus, pergunte a ele, ele vai confirmar.
Eu ainda não a tinha beijado. Pelo menos não pessoalmente, mas em sonho... Enquanto a música brincava de ser feliz às minhas custas, fui me deixando levar cantando baixinho o refrão no seu ouvido: “letis guere riron...”. Putz, se não sei inglês hoje, imagine com quinze anos, coitada.
A adolescência tem cheiro de almíscar, sei disso porque esse era o perfume que ela usava, e durante muito tempo esse perfume permaneceu na minha memória. Tirando o cheiro da terra depois da chuva, almíscar tem cheiro de pra sempre.
Sentindo o aroma da vida fui lentamente virando meu rosto para o encontro daquela boca linda. Boca que sempre mencionava o meu nome da forma mais poética do mundo. Havia pensado naquele dia há semanas, mais precisamente, quinze anos.
Nunca vou esquecer esse beijo. Primeiro porque foi o meu primeiro beijo pra valer, e segundo, porque quase quebrei o sorriso dela. A beijei por uma tarde inteira com todas as bocas que tinha o meu pequeno coraçãozinho de menino apaixonado.
Beijei-a com todos os meus cincos sentidos, e quase fiquei sem os sentidos por conta disso. Quase que morro no meu primeiro dia de vida. Beijei-a com quem agradece por estar vivo.
No anos setenta, época mais brava da ditadura no Brasil, eu estava ali, com a cara cheia de espinhas exercitando a minha revolução: o primeiro amor.
Resolvi escrever sobre isso porque acabo de receber o convite de casamento de dois grandes amigos. E como sou testemunha desse amor quer lembrá-los que por mais belo que seja a lembrança do primeiro beijo ou do primeiro amor, nada, absolutamente nada, é mais importante que o último.
Todo dia é pra sempre.